Os super-poderes dos pais

15 ago

Quando o filho completa 10 anos os pais começam lentamente a perder seus super-poderes. A visão de raio-x, a telepatia e o dom da cura são os últimos a desaparecer, e enquanto gradativamente os pais vão perdendo-os todos o filho vai se revoltando, como parte do processo de entrada na adolescência.

A não-aceitação dos pais como seres humanos agora normais é o que marca o início da puberdade. Durante a adolescência o filho vai guerrear com seus pais humanos, querendo de volta seus super-pais. Infelizmente o processo é irreversível.

Lá pelos 15 anos o filho decide então exercitar seus próprios super-poderes e até chega a ter a ilusão de os ter incorporado, mas na verdade só os terá quando tiver seus próprios filhos. Num segundo momento o filho, vendo fracassadas suas tentativas de tornar-se mais que humano começa então a fazer experiências com ervas e bebidas proibidas, que lhe darão a falsa impressão de ser onipotente. Algumas dessas substâncias provocam dependência e o acompanharão por toda a vida, mesmo não surtindo o efeito desejado.

Ao mesmo tempo em que procura adquirir super-poderes o filho, na segunda fase da adolescência começa a sofrer de um mal muito comum nessa idade: a síndrome do conhecimento universal. Durante o tempo em que durar a moléstia ele acreditará que sabe as respostas para tudo e não aceitará conselhos os sugestões de outros, principalmente se esses outros forem seus pais.

A fase final dessa moléstia inclui delírios, nos quais o adolescente se julga capaz de transformar o mundo e resolver todas as discrepâncias e injustiças criadas ao longo de milênios de civilização, freqüentemente através de um mundo sem trabalho, escola ou regras, habitado apenas por pessoas em sua faixa etária, no qual os adultos seriam varridos sumariamente da face da Terra, especialmente seus pais e todos os amigos deles.

Mas estudaremos melhor esse fenômeno em outra ocasião. Por ora resta esclarecer que uma vez perdidos os super-poderes eles jamais serão recuperados, e mesmo que os pais tenham outro filho, os poderes que ganharão serão úteis apenas com esse filho (até a idade de aproximadamente 10 anos), não surtindo qualquer efeito no filho adolescente.

(zailda coirano)

Anúncios

5 filhos

6 jul

Tenho 5 filhos, e nem sei porque tenho tantos, já que é sabido e notório que eu não gosto de criança. Vai ver eu esperava que ficassem adultos logo, e ficaram.

Eu fico toda orgulhosa por ter conseguido criar meus 5 rebentos nos dias de hoje, o mundo do jeito que está e coisa e tal, penso “agora vou ter paz”, mas qual! Basta tratá-los como adultos que eles começam a agir como crianças. E vá tratar como criança pra ver o que acontece! Emburram!

Os donos-da-verdade aqui da minha casa agora estabeleceram a verdade absoluta que nem Isaac Newton com todas as suas fórmulas diabólicas consegue provar por A + B que é infundada. Estou esclerosada. Ou com Síndrome de Alzheimer. Pode?

Esclerosada é o escambau, distraída eu sempre fui, e vá a gente dizer pros filhos que a gente é doida assim mesmo, que não tem cura mas é loucura mansa… Quando eu disse que vinha pra Diadema disseram: “agora pirou de vez” e até insinuaram que se eu não mudasse de idéia iam me embargar judicialmente. Vê se pode!

Peguei minha malinha, botei lá meus trapinhos, vim pra Diadema e comecei a trabalhar. Custou um pouco a me adaptar. Namorei, casei de novo. Agora tá todo mundo acendendo o pito e vindo morar aqui em Diadema. Mas e eu não era louca? Quem é louco, afinal?

Estou aqui bem bela e folgada vivendo em lua-de-mel com meu maridinho novo, lá vem o primeiro. O segundo, o terceiro. Pára tudo! Não era pra eu vir pra cá e vocês ficarem lá provando na prática as teorias que quase me enfiavam pela goela quando eu estava lá com vocês em Pacaembu?

Deixa quieto, filho nunca ouve o que dizemos. Vai ver estou tendo delírios. Ou ouvindo vozes.

(zailda coirano)

Depois que filho pari…

29 jun

Já diz o ditado: “Depois que filho pari, nunca mais barriga enchi.” E está certo. Para o filho não importa o que você está fazendo, o que ele quer que você faça é sempre muito mais importante.

Semana passada eu estava botando uma panela no fogo (e olha que não é uma ocasião qualquer…) quando minha filha que estava lavando roupa – novidade! – me chamou lá fora pra que eu a ajudasse a ajeitar a roupa na centrífuga. Na verdade ela não pediu ajuda, só me perguntou de lá de onde estava como fazia para arrumar. Como é praticamente impossível passar esse tipo de instrução de um cômodo para uma pessoa que está em outro, lá fui eu.

Minha outra filha me chamou na cozinha para perguntar onde guardava qualquer coisa, enquanto meu filho que estava no quarto começou a me chamar para ver qualquer coisa no pc. Eu já nem sabia pra onde ir, e a panela continuava no fogão, mas sem fogo embaixo.

Quem tem mais de um filho deve saber como me senti naquela hora, porque tudo o que eles vão fazer têm que perguntar, e não importa se você está fazendo outra coisa. Sua obrigação de mãe deve ser largar qualquer coisa que esteja fazendo e ir lá correndo resolver o que seu filho quer.

Quando eram crianças eu imaginava que com o tempo isso iria passar, que quando fossem adultos aprenderiam a se virar, e isso realmente acontece, bastando para isso que não haja nenhuma mãe por perto. Se houver, com certeza virá de lá o grito:

– Manhê, vem aqui um pouquinho…

Santa paciência…

(zailda coirano)

Sentimento de posse

28 maio

O sentimento de posse em relação à mãe é muito comum e a maioria dos filhos o exerce em sua plenitude sem o menor sentimento de culpa. Consideram que aquele ser que os carregou durante 9 meses em seu ventre e que possivelmente os amamentou é uma extensão deles mesmos, como se fosse um braço, por exemplo.

Até aceitam nossas intervenções enquanto são “menores de idade” mas basta completarem 18 anos e já nos jogam na cara que não são mais crianças, sabem o que estão fazendo e são donos do próprio nariz. Já à mãe, que possivelmente já era maior de idade quando os teve, vão exigir que preste contas de seus atos por toda a eternidade.

Quando era jovem eu não via a hora de fazer 18 anos e sair de casa para não ter que prestar contas de meus atos a ninguém e não ter ninguém se metendo em minhas coisas pessoais. Vai daí, consegui comprar minha casa, mas qual! Lá estavam os filhos pra dar palpite em tudo, desde organização da casa até assuntos de natureza pessoal. Em suma, queriam me dizer como eu deveria gerir minha vida. Como se eu precisasse disso… tanto quanto de uma verruga na testa.

Tudo o que os filhos fazem depois de adultos não é da conta da mãe, mesmo que depois dêem com os burros nágua e venham pedir nossa ajuda. Como mães nosso dever é ajudar sem dizer “bem que eu avisei”. Mas o que a mãe faz sempre será da conta dos filhos, desde a cor de esmalte que ela usa até a decisão de trocar de emprego.

(zailda coirano)

Abandonando a própria vida

16 maio

Antes mesmo de um filho nascer, desde aquele momento em que descobre que está grávida, a mãe já começa a priorizar o filho que está para chegar. Sua rotina é drasticamente alterada em função do bem-estar do futuro ser que está carregando. Quando ele nasce tem suas exigências e naturalmente ela vai tentar suprí-las da melhor forma possível, esquecendo-se (freqüentemente) até de si mesma em sua sagrada missão de criar outro ser humano.

O papel de mãe é o esteio da sociedade, nós mães criamos os seres que a formam e somos a fonte que a supre e que garante que ela não irá se extinguir. Nessa missão (que dizem ser sagrada) muitas vezes deixamos nossos próprios interesses e nossas necessidades físicas, emocionais e profissionais em segundo plano.

Esse papel tem lá seus encantos e suas muitas compensações, mas é uma função vitalícia, não há um prazo predeterminado para que o deixemos para cuidar em tempo integral de nossa própria vida. Talvez por isso muitas profissionais hoje preferem deixar os filhos para mais tarde, quando já estejam com sua carreira estabilizada, porque sabem que depois de ter um filho muito do seu tempo e esforço terão que ser direcionados em sua criação.

A sociedade hoje nos impõe uma divisão de tarefas à qual fomos nos adaptando com o correr do tempo mas que é sem dúvida massacrante. Além do filho temos também em nossa vida (a exigir tempo e atenção) chefe e marido, sobrando assim muito pouco tempo para nós mesmas. Muitas desistem de si mesmas e levam uma vida sub-humana, vivendo de forma quase que secundária, tendo como fonte de realizações e satisfações a vida, realizações e satisfações de outras pessoas.

Quando essas pessoas (no caso os filhos) saem de sua vida para viver as suas próprias ela torna-se um ser lamuriante que exige constante atenção ou uma pessoa frustrada que lamenta não ter construído sua própria vida baseada em suas próprias necessidades.

Ser mãe não precisa ser “padecer num paraíso”, podemos e devemos ser felizes como todos os mortais e aqui mesmo, no planeta Terra. Saber dosar o esforço que dispendemos com atividades de nosso próprio interesse com o que usamos em funções em favor de outros pode significar a diferença entre uma vida normal ou uma sub-vida cheia de frustrações.

Não culpe seu filho se sua vida não é ou foi o que você esperava. Não se escude em seu filho para se desculpar por não fazer o que planejou para sua vida. Vá à luta, não deixe para depois porque como eu disse, a maternidade não tem prazo de validade, dura para toda a vida e quando finalmente você sentir que sua “missão” está cumprida pode ser tarde demais para viver o que lhe resta.

(zailda coirano)